segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Um sol com pouco brilho

Não teve um passado brilhante, é certo. "Todos merecemos uma segunda oportunidade, porque humanos que somos, sabemos à partida que vamos errar, e só com o erro aprendemos" dizia-me o meu pai quando era mais pequena, mas grande o suficiente para perceber o quão ele tinha errado.
Passados pouco mais de dez anos não bem, nunca estabilizado, mas longe de tudo aquilo que o deixou mais do que uma vez em ponto morto e nas ruas da amargura! Habituei-me a vê-lo como parte da família mais, ainda que não o sendo, sinto-o como parte da família.
Foi durante grande parte da sua vida um parasita social. Daqueles que todos se queixam e que dizem em tom critico, e sob o meu ponto de vista certo, "tem bom corpo para trabalhar!"
Mas, faz parte das nossas vidas há tanto tempo quanto todos os anos em que teve um "comportamento desviante" mais aqueles em que não totalmente bem se comportava com o mínimo de dignidade para consigo próprio e com respeito para com os que o ajudaram, e melhores ou piores temos sentimentos para com ele.
Hoje, naquele que seria o auge da sua vida, algo raro se passa na massa cinzenta que comanda um corpo magoado pelas acções do passado. Talvez seja castigo por atitudes sistematicamente erradas, mas parece-me que a lição veio irremediavelmente tarde.
Aos 40 anos levarem de um corpo a visão e a fala, a locomoção e a capacidade de mexer cada parte do corpo é um castigo duro demais para quem o recebe e para os que estão à sua volta.
Ter que alimentar quem já não pode levar o garfo à boca, ou levar a passear alguém como se leva o cachorro mais querido de uma casa descompensa qualquer um, até quem vê as coisas pela janela.
Não o tenho visto tanto como o desejaria, ainda que separados apenas por um rio, a verdade é que agora o tenho evitado, porque me custa entrar numa casa de portas para o Tejo que me trazia tantas recordações boas, e ver a infelicidade dos que lá moram, e ver quem morre de dia para dia mais um bocadinho por dentro, por aquilo que está a ser consumido por fora...

4 comentários:

Luís Gonçalves Ferreira disse...

É a fatalidade da vida. Não sei quem é a ciência para a contrariar. Se manipular a vida é altamente censurável (vide o caso da Eutanásia), manipular a hora da morte é também censurável. Pena é que só se vede o Direito de morrer a quem quer e não se censure os procedimentos médicos que deploram o sentido da vida, através procedimentos de saúde que acabam com a pessoa. A morte é muito pessoal e íntima para ser vilipendiada como se vê por aí. :S Compreendo a tua dor, porque já a senti. Um ser humano reservado a uma meia-existência não é viver, é tão-só existir.
Tens que ganhar força e encarar a realidade. Um dia destes dias pode ser o último. Fatalmente o último, para o reencontro adiado.
Beijoca grande.

Catarina disse...

Luigi: quantas vezes me deparo a pensar com essa possibilidade...mas e recordando a utlima vez que o vi,sei que não vou conseguir assistir à degradação daquela alma, nem tao pouco o vou conseguir enfrentar...

Doi mais ver a dor dos outros do que a nossa própria dor!

Luís Gonçalves Ferreira disse...

Isso é a mais cruel das verdades. Quem está de lado sofre muito e quando nós sentimos que sofrem por nós acho que a dor aumenta, porque nos acresce a preocupação em ser um estorvo ou um problema. Esquecemos-nos é que quando se ama se é capaz de tudo.

Beijo!

Andre'Z disse...

Oh minha querida, cabe-te a ti e aos outros que estão perto abrilhantar esse sol que perde o seu brilho natural...

Lov U*